A cul­tu­ra Pop é rica em his­tó­ri­as e refe­rên­ci­as. Que tal uti­li­zá-la para apren­der direi­to de modo mais diver­ti­do? Caio, Mévio e Tício já devem estar can­sa­dos de come­ter tan­tos cri­mes. Vamos mudar então essa play­list do Spo­tify e exer­ci­tar o Direi­to Penal com refe­rên­ci­as atu­ais.

Aper­ta o play no cli­pe abai­xo da Rihan­na, da músi­ca “Man Down”, para tes­tar­mos as suas noções bási­cas de Direi­to Penal Espe­ci­al:

Cli­pe da Músi­ca Man Down, da can­to­ra Rihan­na.

Siga as regras:

  1. Assis­ta o cli­pe intei­ro;
  2. Res­pon­da a per­gun­ta: “A Rihan­na come­teu qual cri­me?”
  3. Leia a cor­re­ção logo abai­xo.

Você não deve ter tido difi­cul­da­des de per­ce­ber que é um caso de homi­cí­dio. Logo no iní­cio do cli­pe, a Rihan­na des­fe­re um tiro na nuca de um homem. Esse homi­cí­dio é, obvi­a­men­te, dolo­so (dolo dire­to de pri­mei­ro grau). A Rihan­na age com cons­ci­ên­cia e  von­ta­de de matar o homem. Apli­ca-se, assim, o arti­go 121, do Códi­go Penal.

O Tri­bu­nal do Juri tem com­pe­tên­cia para jul­gar esse homi­cí­dio, pois é um cri­me dolo­so con­tra a vida (arti­go 5º, inci­so XXXVIII, alí­nea “d”, da Cons­ti­tui­ção Bra­si­lei­ra). Lem­bran­do que o Tri­bu­nal do Juri não seria o órgão com­pe­ten­te, se o homi­cí­dio fos­se cul­po­so, pois ele só jul­ga os cri­mes dolo­sos con­tra a vida.

Não se tra­ta de homi­cí­dio sim­ples, pois há uma qua­li­fi­ca­do­ra. Per­ce­ba que a Rihan­na ati­rou de modo a difi­cul­tar ou impos­si­bi­li­tar a defe­sa do homem. Ela des­fe­riu o tiro pelas cos­tas dele, do alto, escon­di­da em uma jane­la. Ela esta­va em uma posi­ção pri­vi­le­gi­a­da em rela­ção à víti­ma. Foi uma embos­ca­da! (arti­go 121, § 2°, inci­so IV, do Códi­go Penal)

Você assis­tiu o cli­pe todo? Deve ter per­ce­bi­do que o homem estu­prou a Rihan­na no dia ante­ri­or. Ela matou o estu­pra­dor por vin­gan­ça. Essa não é uma vin­gan­ça tor­pe, que qua­li­fi­ca o cri­me. Pelo con­trá­rio, ela agiu de acor­do com um rele­van­te valor moral: fazer jus­ti­ça con­tra quem a estu­prou.

Esse rele­van­te valor moral não afas­ta a cul­pa da Rihan­na. Ela pode­ria ter agi­do de modo diver­so, exi­gin­do que o Esta­do punis­se o homem, mas pre­fe­riu fazer jus­ti­ça com as pró­pri­as mãos. A cul­pa­bi­li­da­de não é afas­ta­da, mas inci­de o pri­vi­lé­gio do  §1º, pri­mei­ra par­te, do arti­go 121, do CP. É difí­cil con­si­de­rar que ela agiu sob o domí­nio de vio­len­ta emo­ção, pois o cri­me não foi pra­ti­ca­do logo após o estu­pro. Foi em outro dia. O cri­me foi pre­me­di­ta­do.

Mas é pos­sí­vel um homi­cí­dio qua­li­fi­ca­do-pri­vi­le­gi­a­do? Sim, nes­te caso, pois a qua­li­fi­ca­do­ra é obje­ti­va e o pri­vi­lé­gio é sub­je­ti­vo. Agir de modo a difi­cul­tar ou impos­si­bi­li­tar a defe­sa do homem não se con­tra­põe ao sen­ti­men­to de fazer jus­ti­ça com as pró­pri­as mãos, para se vin­gar do estu­pra­dor. Ambos podem ser apli­ca­dos em con­jun­to. Só que o rele­van­te valor moral do §1º impe­de a apli­ca­ção da cir­cuns­tân­cia ate­nu­an­te do arti­go 65, inci­so III, alí­nea “a”, do CP. Não pode apli­car duas vezes, por­que eles são iguais.

Eu enten­do ser cabí­vel ain­da a apli­ca­ção do arti­go 66, do Códi­go Penal, que per­mi­te ao juiz reco­nhe­cer uma cir­cuns­tân­cia ate­nu­an­te rele­van­te que não este­ja expres­sa­men­te pre­vis­ta na lei. É a cha­ma­da cir­cuns­tân­cia ate­nu­an­te ino­mi­na­da. Na letra da músi­ca, ela expres­sa dor e revol­ta com tudo o que acon­te­ceu, inclu­si­ve apa­ren­tan­do remor­so por ter mata­do o homem. Ade­mais, é uma mulher que viven­ci­ou um estu­pro. Uma vio­lên­cia de gêne­ro extre­ma­men­te vil. Um temor cons­tan­te para a mulher. Eu então reco­nhe­ce­ria a vio­lên­cia de gêne­ro como cir­cuns­tân­cia ate­nu­an­te ino­mi­na­da em prol da mulher.

Res­pos­ta final: A Rihan­na pra­ti­cou homi­cí­dio dolo­so qua­li­fi­ca­do-pri­vi­le­gi­a­do, na for­ma do arti­go 121, §1º, pri­mei­ra par­te, e § 2°, inci­so IV, do Códi­go Penal. No cál­cu­lo da pena, faço inci­dir a cir­cuns­tân­cia ate­nu­an­te ino­mi­na­da do arti­go 66, do Códi­go Penal.

Você gos­tou do exer­cí­cio? Então cur­ta a pági­na do Direi­to Novo e assi­ne a nos­sa news­let­ter. Tem mui­ta coi­sa legal vin­do por aí!

Leia mais: Ques­tões de Direi­to Cons­ti­tu­ci­o­nal / Ques­tões de Direi­to do Con­su­mi­dor

Sobre Igor Pereira

Dou­to­ran­do e Mes­tre em Direi­to pela Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (UERJ). Estu­da Wri­ting na Uni­ver­si­da­de da Cali­fór­nia — Ber­ke­ley. Já leci­o­nou na UERJ, UFRJ, FGV e em outras uni­ver­si­da­des. É o líder da Clí­ni­ca DDP — Direi­tos Huma­nos, Des­cons­tru­ção e Poder Judi­ciá­rio, com atu­a­ção no Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral. Autor de diver­sos livros e arti­gos jurí­di­cos. Gos­ta do prag­ma­tis­mo nor­te-ame­ri­ca­no, mas sem dis­pen­sar o bom gos­to pari­si­en­se.

Visi­te o meu Site
Veja todas as pos­ta­gens