Temos moti­vos para per­der a fé no direi­to. Afi­nal, os jor­nais noti­ci­am tan­ta cor­rup­ção e len­ti­dão judi­ci­al, que é natu­ral dei­xar­mos a espe­ran­ça na jus­ti­ça pra lá. A gen­te vai tocan­do o bar­co dos pro­ces­sos do dia-a-dia, levan­do a pro­fis­são no pilo­to auto­má­ti­co da vida. Mas isso não é bom para a nos­sa saú­de men­tal. O tra­ba­lho fica mais pesa­do, quan­do ele per­de o sen­ti­do. Por isso é impor­tan­te mine­rar novas espe­ran­ças, ten­tan­do encon­trar no direi­to algo que nos indu­za a recu­pe­rar o estí­mu­lo. 

Esta nova deci­são da Quar­ta Tur­ma do STJ inje­ta espe­ran­ça nas nos­sas vei­as jurí­di­cas cam­ba­le­an­tes. É um caso de guar­da pós­tu­ma (quan­do ela é con­ce­di­da após a mor­te da pes­soa). Tema inte­res­san­te, por­que a ação de guar­da judi­ci­al é per­so­na­lís­si­ma, em regra. Inclu­si­ve, esse foi o fun­da­men­to uti­li­za­do pelo tri­bu­nal de jus­ti­ça para não entrar no méri­to da ques­tão. A Quar­ta Tur­ma do STJ não con­cor­dou e refor­mou a deci­são.

Vou con­tar o caso. A avó tinha a guar­da de fato de uma cri­an­ça com doen­ça cere­bral. A cri­an­ça mora­va com a avó, que arca­va com os gas­tos, ape­sar da guar­da não ser “juri­di­ca­men­te” dela. A avó ajui­zou a ação de guar­da judi­ci­al para garan­tir que a cri­an­ça tives­se direi­to à pen­são por mor­te, mas mor­reu antes da guar­da ser con­ce­di­da pelo juiz. Tan­to a mãe quan­to a cri­an­ça depen­di­am finan­cei­ra­men­te da avó. Se a ação for con­si­de­ra­da per­so­na­lís­si­ma, o caso será fina­li­za­do sem deci­são sobre a guar­da. Mas se isso acon­te­cer, a cri­an­ça per­de o direi­to à pen­são da avó e vive­rá na misé­ria, pois a mãe não tem con­di­ções de sus­ten­tá-la.

A Quar­ta Tur­ma do STJ enten­deu que a guar­da pós­tu­ma deve ser reco­nhe­ci­da, quan­do tiver afe­to entre os envol­vi­dos (prin­cí­pio da afe­ti­vi­da­de) e ficar cla­ra a inten­ção do fale­ci­do de ter a guar­da.  A avó ama­va a cri­an­ça e não havia opo­si­ção dos pais à con­ces­são da guar­da. Tudo com­bi­na­va para um final per­fei­to, mas infe­liz­men­te a avó mor­reu. Nada mais jus­to do que con­fe­rir for­ça jurí­di­ca a uma rea­li­da­de afe­ti­va.

Aten­ção para o seguin­te: não é pos­sí­vel o pedi­do de guar­da para fins mera­men­te pre­vi­den­ciá­ri­os. Mas esse não foi o caso, pois havia mui­to amor envol­vi­do. Prin­cí­pio da afe­ti­vi­da­de: lem­bre-se sem­pre dele. O obje­ti­vo da avó era asse­gu­rar vida com dig­ni­da­de à cri­an­ça. Era dar segu­ran­ça a ela, garan­tin­do o sus­ten­to dela, rea­li­zan­do o melhor inte­res­se da cri­an­ça.

Ufa! Espe­ro que essa deci­são do STJ faça você recu­pe­rar o fôle­go, mes­mo dian­te de tan­ta tra­gé­dia e tec­ni­cis­mos no mun­do do direi­to. Você apren­deu um caso recen­te, que envol­ve direi­to de famí­lia e pre­vi­den­ciá­rio. O STJ divul­gou esta notí­cia no dia 05 de dezem­bro de 2017, mas não deu publi­ci­da­de ao pro­ces­so, pois tra­mi­ta em segre­do de jus­ti­ça.

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Sobre Igor Pereira

Dou­to­ran­do e Mes­tre em Direi­to pela Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (UERJ). Estu­da Wri­ting na Uni­ver­si­da­de da Cali­fór­nia — Ber­ke­ley. Já leci­o­nou na UERJ, UFRJ, FGV e em outras uni­ver­si­da­des. É o líder da Clí­ni­ca DDP — Direi­tos Huma­nos, Des­cons­tru­ção e Poder Judi­ciá­rio, com atu­a­ção no Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral. Autor de diver­sos livros e arti­gos jurí­di­cos. Gos­ta do prag­ma­tis­mo nor­te-ame­ri­ca­no, mas sem dis­pen­sar o bom gos­to pari­si­en­se.

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