O autis­mo é cer­ca­do de desen­ten­di­men­tos. Não são pou­cos, infe­liz­men­te, que pos­su­em uma ideia tur­va sobre a rea­li­da­de das pes­so­as autis­tas. Daí para o pre­con­cei­to é um pas­so cur­to e dolo­ro­so. Enten­da mais sobre o autis­mo e aju­de a cons­truir uma soci­e­da­de huma­na e desen­vol­vi­da. Mais neu­ro­di­ver­sa.

A Lei 12.764, de 27 de dezem­bro de 2012, cri­ou a polí­ti­ca naci­o­nal de pro­te­ção dos direi­tos da pes­soa com trans­tor­no do espec­tro autis­ta. O ati­go 4º, da Lei, proi­be dis­cri­mi­nar pes­so­as autis­tas, real­çan­do o que a nos­sa Cons­ti­tui­ção sem­pre deter­mi­nou: res­pei­to à dife­ren­ça.

Com­pre­en­são e res­pei­to andam jun­tos. A gen­te nao dis­cri­mi­na quem conhe­ce e enten­de. Pre­ci­sa­mos colo­car as nos­sas pre­ten­sões de ver­da­de de lado para acei­tar, aco­lher e tra­tar bem.

O autis­mo é sobre pen­sar e viver dife­ren­te. O esti­lo de vida autis­ta tem o seu char­me. Liber­te-se do pre­con­cei­to com estas 3 ver­da­des que vêm do autis­mo.

 

1 — Autistas falam, crescem e podem ser felizes

 

Pela Polí­ti­ca Naci­o­nal de Pro­te­ção (art. 1º, §1º), autis­tas são aque­les que pos­su­em defi­ci­ê­nia per­sis­ten­te e cli­ni­ca­men­te sig­ni­fi­ca­ti­va da comu­ni­ca­ção e da inte­ra­ção soci­ais ou padrões res­tri­ti­vos e repe­ti­ti­vos de com­por­ta­men­tos, inte­res­ses e ati­vi­da­des.

Des­mis­ti­fi­can­do essa sopa de pala­vras: autis­ta é quem soci­a­li­za e se com­por­ta de modo dife­ren­te da mai­o­ria, devi­do a uma muta­ção genô­mi­ca. Sim­ples assim.

Às vezes esse com­por­ta­me­no pode pare­cer “fora da rea­li­da­de”, mas é bom lem­brar que pes­so­as não-autis­tas (neu­ro­tí­pi­cas) cons­trui­ram esses padrões de soci­a­li­za­ção. O autis­ta pode estar feliz, mes­mo quan­do ele pare­ce mais tími­do e iso­la­do aos olhos do mun­do.

O autis­mo tem vári­os graus. Seve­ros, mode­ra­dos e “leves”. Nes­ses últi­mos estão aque­les que pos­su­em a sín­dro­me de asper­ger. Os aspi­es falam, estu­dam, rela­ci­o­nam-se e vivem bem. Assim como você. O diag­nós­ti­co de autis­mo leve é recen­te. No Bra­sil, só se ini­ci­ou para valer a par­tir dos anos 2000. O seu melhor ami­go pode ser aspie e vocês podem não saber dis­so.

Mes­mo os nos­sos cole­gas com autis­mo mode­ra­do e seve­ro podem ser feli­zes. A comu­ni­ca­ção ser difi­cí­li­ma não impe­de alguém de ter a sua pró­pria jor­na­da de vida. Nós não sabe­mos o que pas­sa pela cabe­ça de quem não se comu­ni­ca. Tem um ser huma­no ali que vive uma rea­li­da­de que você não conhe­ce. Abra a sua men­te e mos­tre res­pei­to.

 

2 — O autismo é uma fábrica de gênios

 

O espec­tro autis­ta pode ser enca­ra­do como um pre­sen­te. Sem­pre defen­di isso. A con­di­ção gené­ti­ca pre­sen­teia o autis­ta com uma inte­li­gên­cia aci­ma da média, que pode inclu­si­ve evo­luir para a super­do­ta­ção ou o desen­vol­vi­men­to de altas habi­li­da­des.

Se o aspie for cri­a­do em um ambi­en­te aco­lhe­dor e tiver aces­so a uma edu­ca­ção inclu­si­va, ele terá chan­ces de desen­vol­ver o seu poten­ci­al e flo­res­cer. O dis­tan­ci­a­men­to de aspec­tos ordi­ná­ri­os da inte­ra­ção soci­al e a pre­sen­ça de inte­res­ses fixos favo­re­cem gran­des fei­tos. Você já ouviu falar em Leo­nar­do da Vin­ci? Ele era autis­ta e é con­si­de­ra­do o gênio mais cri­a­ti­vo da his­tó­ria da huma­ni­da­de.

A fór­mu­la da geni­a­li­da­de é sim­ples de enten­der. Sem se dis­trair tan­to com coi­sas do dia-a-dia e com um cére­bro cli­ni­ca­men­te ace­le­ra­do, con­cen­tra­do e per­se­ve­ran­te (ou obses­si­vo), o autis­ta pode apren­der sozi­nho o que for neces­sá­rio para cum­prir os seus obje­ti­vos mais pre­ten­si­o­sos. A men­te autis­ta é uma cai­xi­nha de sur­pre­sas que guar­da o pró­xi­mo avan­ço da huma­ni­da­de.

A Lei 13.234, de 29 de dezem­bro de 2015, deter­mi­na que os alu­nos super­do­ta­dos ou com altas habi­li­da­des sejam iden­ti­fi­ca­dos, cadas­tra­dos e que haja aten­di­men­to espe­ci­al para eles, na edu­ca­ção bási­ca e na edu­ca­ção supe­ri­or.

 

3 — Um autista pode ser uma Estrela

 

Esque­ça o este­reó­ti­po de que o autis­ta é tími­do e não con­se­gue soci­a­li­zar. O espec­tro é amplo e os autis­tas são capa­cís­si­mos de lidar com os sin­to­mas, caso sejam bem trei­na­dos e com supor­te ade­qua­do.

Micha­el Phelps, o mul­ti­cam­peão olím­pi­co de nata­ção, come­çou a nadar para con­tro­lar a hipe­ra­ti­vi­da­de e o defi­cit de aten­ção (comor­bi­da­des comuns em pes­so­as autis­tas).

Os médi­cos, pro­va­vel­men­te, teri­am colo­ca­do Isa­ac New­ton e Albert Eins­tein no espec­tro autis­ta, se eles tives­sem nas­ci­do após a des­co­ber­ta da sín­dro­me de asper­ger. Exis­tem for­tes rumo­res de que Bill Gates e Ste­ve Jobs tam­bém eram autis­tas.

Essas pes­so­as obti­ve­ram suces­so e foram as estre­las do seu tem­po. Autis­tas podem apren­der a olhar nos olhos, dar boas risa­das com os ami­gos, posar para fotos e inclu­si­ve “ligar e des­li­gar” os sin­to­mas. Eu sei que essas metas podem pare­cer inal­can­çá­veis, mas são pos­sí­veis com um trei­na­men­to ade­qua­do.

Pres­te aten­ção nas mulhe­res autis­tas. Elas ten­dem a desen­vol­ver mais rápi­do as habi­li­da­des soci­ais para se pro­te­ge­rem. É uma ques­tão de sobre­vi­vên­cia em um mun­do ain­da machis­ta. Exis­tem diver­sas mulhe­res que nas­cem no espec­tro e não são diag­nos­ti­ca­das, jus­ta­men­te por­que não dei­xam evi­den­tes os sin­to­mas do autis­mo.

Eu sei que a super­do­ta­ção e as altas habi­li­da­des são um fator a mais de pres­são e pre­con­cei­to para quem é autis­ta. Tal­vez o Bill Gates não seja a rea­li­da­de de todos os autis­tas, mas é um exce­len­te mode­lo para se espe­lhar.

O espec­tro pode cau­sar medo para o autis­ta e os seus fami­li­a­res. Ami­gos tam­bém podem ficar pre­o­cu­pa­dos. Mas tudo é uma ques­tão de enten­der que as men­tes das pes­so­as são diver­sas. Abra­ce a ban­dei­ra da neu­ro­di­ver­si­da­de. E se você é autis­ta, fique cal­mo e bri­lhe. Vai dar tudo cer­to!

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Sobre Igor Pereira

Dou­to­ran­do e Mes­tre em Direi­to pela Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (UERJ). Estu­da Wri­ting na Uni­ver­si­da­de da Cali­fór­nia — Ber­ke­ley. Já leci­o­nou na UERJ, UFRJ, FGV e em outras uni­ver­si­da­des. É o líder da Clí­ni­ca DDP — Direi­tos Huma­nos, Des­cons­tru­ção e Poder Judi­ciá­rio, com atu­a­ção no Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral. Autor de diver­sos livros e arti­gos jurí­di­cos. Gos­ta do prag­ma­tis­mo nor­te-ame­ri­ca­no, mas sem dis­pen­sar o bom gos­to pari­si­en­se.

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