A Lei 13.505, de 8 de novem­bro de 2017, mudou a Lei Maria da Penha. Ago­ra, as mulhe­res em situ­a­ção de vio­lên­cia domés­ti­ca e fami­li­ar têm direi­to ao aten­di­men­to poli­ci­al e peri­ci­al espe­ci­a­li­za­do, inin­ter­rup­to e pres­ta­do, pre­fe­ren­ci­al­men­te, por outra mulher.

A vio­lên­cia de gêne­ro dei­xa mar­cas no cor­po e na alma da mulher. É uma situ­a­ção ter­ri­vel­men­te ínti­ma para ser expos­ta a um homem. A ten­dên­cia é que a víti­ma se sin­ta mais con­for­tá­vel em con­tar para outra mulher a agres­são que sofreu. Mulhe­res pas­sam por pro­ble­mas pare­ci­dos de soci­a­li­za­ção. O enten­di­men­to entre elas é mais fácil, prin­ci­pal­men­te sobre como lidar com a vio­lên­cia do homem e vencê-la. 

Um homem que faz o aten­di­men­to poli­ci­al e peri­ci­al cons­tran­ge a mulher. Esse pro­ces­so irá agre­di-la uma segun­da vez, humi­lhan­do-a e sub­me­ten­do-a a per­gun­tas des­ne­ces­sá­ri­as ou pre­con­cei­tu­o­sas. Por isso a lei deter­mi­na que o aten­di­men­to seja rea­li­za­do pre­fe­ren­ci­al­men­te por uma ser­vi­do­ra, que deve ser capa­ci­ta­da para lidar com um tema tão delicado.

Se, por ven­tu­ra, não hou­ver ser­vi­do­ra dis­po­ní­vel, um homem pode­rá aten­dê-la, mas ape­nas se for capa­ci­ta­do para lidar com ques­tões de gêne­ro. A rea­li­da­de da mulher não é sim­ples. Pos­sui diver­sas pecu­li­a­ri­da­des. Um homem pre­ci­sa ter empa­tia e estu­do pré­vio para ser útil dian­te des­sas situ­a­ções deli­ca­das. Uma mulher rara­men­te se sen­ti­rá mais à von­ta­de para tra­tar des­ses assun­tos com um homem. 

Segun­do a Lei Nova, a ser­vi­do­ra (e, excep­ci­o­nal­men­te, o ser­vi­dor) deve seguir algu­mas regras para ouvir a mulher em situ­a­ção de vio­lên­cia domés­ti­ca e fami­li­ar ou de tes­te­mu­nha de vio­lên­cia domés­ti­ca, quan­do se tra­tar de cri­me con­tra a mulher. 

A aten­den­te, pri­mei­ro, deve pri­o­ri­zar a inte­gri­da­de físi­ca, psí­qui­ca e emo­ci­o­nal da mulher. 

Segun­do, garan­tir que a víti­ma, as suas tes­te­mu­nhas  e os seus fami­li­a­res não tenham con­ta­to dire­to com o sus­pei­to, o inves­ti­ga­do ou pes­so­as rela­ci­o­na­das a eles. 

Ter­cei­ro, com­ba­ter a revi­ti­mi­za­ção da mulher, evi­tan­do que ela sofra duas vezes. A ser­vi­do­ra não deve per­gun­tar sobre a vida pri­va­da dela ou a mes­ma coi­sa vári­as vezes, evi­tan­do o mes­mo depoi­men­to em pro­ces­sos dife­ren­tes (cri­mi­nais, civis e admi­nis­tra­ti­vos). O ide­al é que exis­ta um diá­lo­go entre as ser­vi­do­ras de pro­ces­sos dis­tin­tos, para que a mulher seja inte­gral­men­te protegida.

Per­gun­tas pre­con­cei­tu­o­sas sobre a vida pri­va­da da mulher podem ser fatais para o bem-estar dela, des­truin­do o emo­ci­o­nal, fazen­do-a se sen­tir cul­pa­da pela vio­lên­cia que sofreu. A cul­pa da agres­são é do agres­sor. Jamais será da mulher.

Os Esta­dos e o Dis­tri­to Fede­ral, na for­mu­la­ção de suas polí­ti­cas e pla­nos de aten­di­men­to à mulher em situ­a­ção de vio­lên­cia domés­ti­ca e fami­li­ar, devem pri­o­ri­zar, no âmbi­to da Polí­cia Civil, à cri­a­ção de Dele­ga­ci­as Espe­ci­a­li­za­das de Aten­di­men­to à Mulher (Deams), de Núcle­os Inves­ti­ga­ti­vos de Femi­ni­cí­dio e de equi­pes espe­ci­a­li­za­das para o aten­di­men­to e a inves­ti­ga­ção das vio­lên­ci­as gra­ves con­tra a mulher.

Segun­do o Minis­té­rio Públi­co, o Bra­sil regis­trou oito casos de femi­ni­cí­dio por dia, entre mar­ço de 2016 e mar­ço de 2017. Foram 2925 casos no país, aumen­to de 8,8% em rela­ção ao ano anterior.

Sobre Igor Pereira

Dou­to­ran­do e Mes­tre em Direi­to pela Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (UERJ). Estu­da Wri­ting na Uni­ver­si­da­de da Cali­fór­nia — Ber­ke­ley. Já leci­o­nou na UERJ, UFRJ, FGV e em outras uni­ver­si­da­des. É o líder da Clí­ni­ca DDP — Direi­tos Huma­nos, Des­cons­tru­ção e Poder Judi­ciá­rio, com atu­a­ção no Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral. Autor de diver­sos livros e arti­gos jurí­di­cos. Gos­ta do prag­ma­tis­mo nor­te-ame­ri­ca­no, mas sem dis­pen­sar o bom gos­to parisiense.

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