A juris­pru­dên­cia muda rápi­do. Os tri­bu­nais podem nos sur­pre­en­der com deci­sões novas a qual­quer momen­to. É impor­tan­te usar a inter­net dia­ri­a­men­te para se atu­a­li­zar, por­que os manu­ais de direi­to demo­ram para acom­pa­nhar essa rea­li­da­de. Ficar só nos livros pode não ser uma boa ideia para o seu futu­ro. Insi­ra a juris­pru­dên­cia na sua roti­na para você rea­li­zar logo os seus sonhos. Aos estudos!

 

Passo a passo desta nova súmula penal do Superior Tribunal de Justiça

Súmula 589

 Súmu­la 589 — É ina­pli­cá­vel o prin­cí­pio da insig­ni­fi­cân­cia nos cri­mes ou con­tra­ven­ções penais pra­ti­ca­dos con­tra a mulher no âmbi­to das rela­ções domés­ti­cas. (Súmu­la 589, TERCEIRA SEÇÃO, jul­ga­do em 13/09/2017, DJe 18/09/2017)

Cri­me é con­du­ta típi­ca, anti­ju­rí­di­ca e cul­pá­vel. O prin­cí­pio da insig­ni­fi­cân­cia tor­na a con­du­ta atí­pi­ca, pois o bem jurí­di­co penal­men­te tute­la­do é atin­gi­do de modo ínfi­mo. A con­du­ta é for­mal­men­te típi­ca (ade­qua-se à for­ma, “ao que está escri­to no tipo penal”), mas é mate­ri­al­men­te atí­pi­ca, pois não atin­giu de modo rele­van­te o bem jurí­di­co pro­te­gi­do. Não há cri­me, por­tan­to. O direi­to penal seria um ins­tru­men­to mui­to rígi­do para ser uti­li­za­do em casos irrelevantes.

SIMPLIFICANDO!

A pes­soa agre­diu a mulher, mas não com tan­ta for­ça. Alguém pode­ria dizer: “ela qua­se não se machu­cou” ou “ah! mas vai punir ele só por isso?!”. Sabe aque­la lógi­ca de um tapi­nha não dói?! Então este seria um caso de insig­ni­fi­cân­cia. Mas o STJ esta­va aten­to aos direi­tos das mulhe­res e dis­se que “um tapi­nha dói sim”. Agre­dir uma mulher jamais pode­rá ser enten­di­do como uma ques­tão pequena.

Nenhum cri­me pra­ti­ca­do con­tra a mulher é insig­ni­fi­can­te no con­tex­to da Lei Maria da Penha. A lesão jamais será ínfi­ma. Para Rey­nal­do Soa­res da Fon­se­ca, Minis­tro da Quin­ta Tur­ma do STJ, a con­du­ta do cri­mi­no­so será sem­pre repro­vá­vel de modo sig­ni­fi­ca­ti­vo, mes­mo se as rela­ções fami­li­a­res forem man­ti­das ou se o agres­sor tiver um pas­sa­do de boa repu­ta­ção ou bom comportamento. 

Atenção!

O prin­cí­pio da insig­ni­fi­cân­cia tam­bém não será apli­ca­do nos casos de con­tra­ven­ção penal. O enten­di­men­to vale para cri­me e con­tra­ven­ção. Assim, o Esta­do puni­rá as con­du­tas pre­vis­tas no decre­to-lei n° 3.688, de 3 de outu­bro de 1941 (a Lei das Con­tra­ven­ções Penais). Por exem­plo, se o agres­sor pra­ti­car vias de fato, dan­do um tapa na víti­ma sem dei­xar marcas.

O STJ tam­bém proi­biu a apli­ca­ção do prin­cí­pio da baga­te­la impró­pria, isto é, quan­do a pena for des­ne­ces­sá­ria. O Tri­bu­nal não dei­xou expres­so na Súmu­la, mas isso cons­ta nos pre­ce­den­tes que deram ori­gem a ela. No prin­cí­pio da baga­te­la impró­pria, a con­du­ta é típi­ca e anti­ju­rí­di­ca, mas não é cul­pá­vel, pois a pena é desnecessária. 

Nas pala­vras do Minis­tro Nefi Cor­dei­ro, da Sex­ta Tur­ma do STJ, “o prin­cí­pio da baga­te­la impró­pria não tem apli­ca­ção aos deli­tos pra­ti­ca­dos com vio­lên­cia à pes­soa, no âmbi­to das rela­ções domés­ti­cas, dada a rele­vân­cia penal da con­du­ta, não impli­can­do a recon­ci­li­a­ção do casal em des­ne­ces­si­da­de da pena.”

Leia o arti­go 5º, da Lei Maria da Penha, para enten­der o que é vio­lên­cia domés­ti­ca e fami­li­ar con­tra a mulher:

Atenção!

Art. 5o  Para os efei­tos des­ta Lei, con­fi­gu­ra vio­lên­cia domés­ti­ca e fami­li­ar con­tra a mulher qual­quer ação ou omis­são base­a­da no gêne­ro que lhe cau­se mor­te, lesão, sofri­men­to físi­co, sexu­al ou psi­co­ló­gi­co e dano moral ou patrimonial: 

I — no âmbi­to da uni­da­de domés­ti­ca, com­pre­en­di­da como o espa­ço de con­ví­vio per­ma­nen­te de pes­so­as, com ou sem vín­cu­lo fami­li­ar, inclu­si­ve as espo­ra­di­ca­men­te agregadas; 

II — no âmbi­to da famí­lia, com­pre­en­di­da como a comu­ni­da­de for­ma­da por indi­ví­du­os que são ou se con­si­de­ram apa­ren­ta­dos, uni­dos por laços natu­rais, por afi­ni­da­de ou por von­ta­de expressa; 

III — em qual­quer rela­ção ínti­ma de afe­to, na qual o agres­sor con­vi­va ou tenha con­vi­vi­do com a ofen­di­da, inde­pen­den­te­men­te de coabitação.

Pará­gra­fo úni­co.  As rela­ções pes­so­ais enun­ci­a­das nes­te arti­go inde­pen­dem de ori­en­ta­ção sexual.

Sobre Igor Pereira

Dou­to­ran­do e Mes­tre em Direi­to pela Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (UERJ). Estu­da Wri­ting na Uni­ver­si­da­de da Cali­fór­nia — Ber­ke­ley. Já leci­o­nou na UERJ, UFRJ, FGV e em outras uni­ver­si­da­des. É o líder da Clí­ni­ca DDP — Direi­tos Huma­nos, Des­cons­tru­ção e Poder Judi­ciá­rio, com atu­a­ção no Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral. Autor de diver­sos livros e arti­gos jurí­di­cos. Gos­ta do prag­ma­tis­mo nor­te-ame­ri­ca­no, mas sem dis­pen­sar o bom gos­to parisiense.

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