Esque­ça os jar­gões jurí­di­cos, as pala­vras difí­ceis e o esti­lo fabri­ca­do. O for­ma­lis­mo engra­va­ta­do vai te tor­nar um juris­ta esque­cí­vel. A pom­pa e os dis­cur­sos inin­te­li­gí­veis são luxos dos advo­ga­dos que têm dinhei­ro e lobby. Se você não tem nada dis­so, se for um mero mor­tal, um peque­no nemo no meio dos tuba­rões, então depen­de­rá úni­ca e exclu­si­va­men­te do seu caris­ma e das suas ideias.

Você tem que falar e escre­ver bem. Pre­ci­sa con­ven­cer as pes­so­as, sem medo de colo­car uma pita­da de novi­da­de na sua prá­ti­ca jurí­di­ca. Eu sei que o direi­to é um ter­re­no inós­pi­to. Seus habi­tan­tes são con­ser­va­do­res. Mas você pre­ci­sa arriscar.

As pes­so­as têm receio do que elas não conhe­cem, porém tudo é uma ques­tão de encon­trar o equi­lí­brio entre o que elas estão acos­tu­ma­das e o que pre­ci­sam para sair da zona de con­for­to. Em Impos­si­ble to Igno­re, Car­men Simon expli­ca que as pes­so­as agem em tor­no do que elas lem­bram, e não em tor­no do que elas esque­cem. Você não será lem­bra­do se repe­tir as velhas fór­mu­las. Será igno­ra­do, se colo­car a mes­ma rou­pa e escre­ver do mes­mo jei­to pra falar das mes­mas coisas. 

Você pre­ci­sa ante­ci­par o futu­ro para influ­en­ci­ar a memó­ria dos outros. Ela­bo­rar uma nar­ra­ti­va emo­ci­o­nan­te e ver­da­dei­ra que te fará ser um advo­ga­do inesquecível.

 

1) Comece escrevendo bem

Faça as suas peti­ções serem sexy. Escre­ver é sedu­ção, como diz Stephen King. Uma boa con­ver­sa faz par­te da sedu­ção. Seja menos for­mal. Mais con­ver­sa­ci­o­nal. Sem assus­tar, é cla­ro, o juiz. Tem­pe­re o tex­to ao seu gos­to, mas não vá colo­can­do pimen­ta demais no pra­to alheio. O seu públi­co tem que gos­tar do que você escre­ve. Cor­te pala­vras, reti­re cha­vões e evi­te ao máxi­mo ter­mos téc­ni­cos des­ne­ces­sá­ri­os. Seja bre­ve. Não seja cha­to. Con­te uma boa his­tó­ria. Sai­ba ati­çar nas pre­li­mi­na­res e todos vão se apai­xo­nar por você já no pri­mei­ro parágrafo.

 

2) Tenha estilo

No direi­to é com­pli­ca­do mexer na rou­pa. Seja tra­di­ci­o­nal aí. O máxi­mo que dá pra fazer é ser deta­lhis­ta. O nó na gra­va­ta pode fazer a dife­ren­ça para os homens. Um con­jun­to ele­gan­te de aces­só­ri­os pode ser o char­me do visu­al das mulhe­res. Mas eu não vim aqui pra falar disso.

Ter esti­lo é ter per­so­na­li­da­de. É con­tar uma his­tó­ria ver­da­dei­ra, que levan­te a sua auto­es­ti­ma e a dos outros. Não seja tóxi­co. Baba­o­vo. Arro­gan­te. As pes­so­as, em geral, detes­tam isso. Só atu­ram por medo ou por fal­ta de melho­res refe­rên­ci­as. Seja aque­le advo­ga­do que luta pela jus­ti­ça. Mas seja de ver­da­de. As más­ca­ras caem mais cedo ou mais tar­de e só a coe­rên­cia con­quis­ta um públi­co qua­li­fi­ca­do. Faça o Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral cair em lágri­mas. Faça com que as pes­so­as tor­çam por você pelo que você real­men­te é.

Ter esti­lo é ter per­so­na­li­da­de. É con­tar uma his­tó­ria ver­da­dei­ra, que levan­te a sua auto­es­ti­ma e a dos outros. Twe­et it

Foto: Nancy Stone/TNS via Getty Images

Lem­bre-se dos advo­ga­dos de Nova Ior­que que luta­ram pelos imi­gran­tes e refu­gi­a­dos. O pre­si­den­te Donald Trump bar­rou diver­sos deles no Aero­por­to John F. Ken­nedy e os advo­ga­dos foram lá em bus­ca de cli­en­tes, com um tra­ba­lho volun­tá­rio que fez jus à con­cen­tra­ção demo­cra­ta nova-ior­qui­na. Eles bus­ca­vam as pes­so­as nas filas da imi­gra­ção e redi­gi­am as defe­sas em lap­tops no chão. Havia advo­ga­dos 24 horas por dia, falan­do com as famí­li­as, ela­bo­ran­do estra­té­gi­as, fazen­do tudo o que podi­am. Essa é uma lin­da his­tó­ria que te tor­na inesquecível.

 

3) Aprenda com Martin Luther King

Faça o seu sonho sur­gir na men­te do juiz. Você é advo­ga­do. Acre­di­ta na for­ça trans­for­ma­do­ra do direi­to e no com­ba­te às injus­ti­ças sem vio­lên­cia. A polí­ti­ca limi­ta a guer­ra. O direi­to ten­ta limi­tar a polí­ti­ca. O advo­ga­do ines­que­cí­vel é um comu­ni­ca­dor talen­to­so, apto a limi­tar a polí­ti­ca e ree­qui­li­brar o jogo de forças. 

Invis­ta na ora­tó­ria. As Facul­da­des de Direi­to come­tem um erro gros­sei­ro ao não uti­li­zar méto­dos edu­ca­ci­o­nais ati­vos, que pre­pa­rem os alu­nos para falar bem. Sai­ba impro­vi­sar. Conhe­ça os gran­des dis­cur­sos que muda­ram a his­tó­ria da huma­ni­da­de. Apren­da a dar musi­ca­li­da­de à voz fala­da, expres­san­do sen­ti­men­tos, tra­ba­lhan­do com as pau­sas e alte­ran­do os timbres. 

 

4) Estude para ser Independente

Leia o que o seu cora­ção man­dar, e não o que man­da­ram você ler. Não adi­an­ta nada repe­tir o livro que o juiz já leu um milhão de vezes. Você pre­ci­sa ser dife­ren­te. Cons­trua a sua pró­pria bibli­o­gra­fia. Des­cu­bra novos auto­res. Não se sin­ta pres­si­o­na­do para falar o que todo mun­do fala. Cor­ra atrás dos seus pró­pri­os cli­en­tes e cons­trua a sua eru­di­ção pelos seus estu­dos. Tem gen­te tóxi­ca que quer você às som­bras dela, sen­do papa­gaio de pira­ta. A inter­net é um ins­tru­men­to incrí­vel para a sua inde­pen­dên­cia. Pro­cu­re livros de temas que te inte­res­sam na Ama­zon. Apro­vei­te os ban­cos de dados onli­ne para ler arti­gos recentes.

Seja memo­rá­vel. Ines­que­cí­vel. Você mere­ce e a sua car­rei­ra também.

 

Sobre Igor Pereira

Dou­to­ran­do e Mes­tre em Direi­to pela Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (UERJ). Estu­da Wri­ting na Uni­ver­si­da­de da Cali­fór­nia — Ber­ke­ley. Já leci­o­nou na UERJ, UFRJ, FGV e em outras uni­ver­si­da­des. É o líder da Clí­ni­ca DDP — Direi­tos Huma­nos, Des­cons­tru­ção e Poder Judi­ciá­rio, com atu­a­ção no Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral. Autor de diver­sos livros e arti­gos jurí­di­cos. Gos­ta do prag­ma­tis­mo nor­te-ame­ri­ca­no, mas sem dis­pen­sar o bom gos­to parisiense.

Visi­te o meu Site
Veja todas as postagens